Cintra Galvão : 88 anos de História

Cintra Galvão nasceu na periferia de Belo Jardim, especificamente na Rua da Palha no ano de 1932, seu pai era coveiro.
Cintra Galvão diferentemente dos poderosos que governaram Belo Jardim antes de se, tinha uma origem modesta, marcada pela pobreza, contudo suas raízes se transformaram no seu capital simbólico, o aproximando assim das camadas mais populares de nossa Cidade.
Ao lado de seu irmão, Cecílio Cintra Galvão, Cintra transformou sua trajetória de vida num conto de fadas, isto é, menino pobre que venceu na vida. Foi a partir da sociedade entre os dois irmãos “Kinkas” que o Pavão ganhou notoriedade sendo indicado a disputar postos políticos, de início pra prefeito e mais tarde como Deputado Estadual.
Já em 1945 na Avenida Bom Conselho Cintra dava seus primeiros passos na vida mercantil com seu inseparável irmão, chegando a figurar entre os mais afortunados da cidade já na década de 1950.
É claro que com tamanho destaque econômico logo viria a indicação pra ocupar o mais importante posto do Município, tendo ambos os irmãos forte popularidade para tal. Foi o então Deputado José Mendonça que convidou Cintra pra fazer parte seu grupo político. Claro que o poder econômico de Cintra foi determinante para escolha, uma vez que a partir da década de 1960 o capital financeiro “tornou-se elemento fundamental na conquista de um
mandato”, como cita José Adilson filho. A fortuna dos irmãos foi o lastro da campanha de Cintra.
Cintra foi eleito prefeito de Belo Jardim pela primeira vez em 1968, assumiu em 1969 e ficou no cargo até 1973 assim analisou José Adilson Filho “Seu governo definiu-se pela orientação desenvolvimentista, principalmente pela defesa da industrialização”. Um dos feitos e ponta pé para esse desenvolvimentismo foi à implantação do Primeiro Distrito Industrial, localizado as margens da BR-232, o desempenho de Cintra como administrador redesenhou o perfil socioeconômico de Belo Jardim.
Mas, a partir de 1974, Cintra se desliga do grupo liderado por José Mendonça e passa a ser ele próprio seu líder, disputando com seu agora inimigo político a atenção de políticos como Marcos Maciel e Roberto Magalhães. Cintra da além de disputar o período Militar pela ARENA manteu-se fiel aos Militares, sendo muito atencioso para com os golpistas de 1964, buscando inclusive aporte financeiro para comemorar festividades ligadas a Ditadura e seus simpatizantes. Pois é, um populista a serviço dos militares. Parece controverso, mas é realmente assim que Cintra Galvão fez carreira política. Ao todo mudou de partido 6x durante sua vida. É o tipo de político que está no partido que está na crista da onda, inclusive no auge do PT, tentou se aliar ao partido dos trabalhadores, tendo seu registro rejeitado pelo diretório Municipal. A sua liderança foi construída nos setores mais pobres do funcionamento municipal (garis, merendeiras, serviços gerais, professores, etc,) e nos pequenos agricultores e comerciantes das zonas rural e urbana.
Com Cintra Prefeito ou liderando Belo Jardim entre 1969-2000 é certo que foi sob sua batuta que nossa Cidade foi industrializada, foi no período do seu governo que ganhamos destaques nos jornais da Capital como “cidade com vocação industrial”.
Junto com o surgimento de Cintra na política em 1969, nasceu também a bipolaridade entre os grupos liderados pelas duas famílias que se reversa riam no poder nas décadas seguintes: Os Galvãos sob liderança do populista Cintra Galvão e os Mendonças sob chefia do articulador José Mendonça Bezerra, Esses senhores foram os atores principais das decisões políticas de Belo Jardim a partir de fins de 1968 até os dias atuais, pois estes sobrenomes foram os ocupantes ou apoiadores dos que sentaram na cadeira do poder executivo de Belo Jardim.
Não dá pra falar em Cintra sem citar a rivalidade histórica dos dois patriarcas ( Cintra x Zé Mendonça) da política belo-jardinense pós período dos coronéis de Belo Jardim.
O clientelismo em Belo Jardim é filho legítimo de Cintra Galvão, pois foi a partir de seu mandato que pessoas ligadas a ele tiveram seus apadrinhados ocupando cargos públicos. Por isso o controle da prefeitura foi pra Cintra o símbolo da manutenção do seu poder político, esse fator foi determinante para que seus negócios fora da política viessem abaixo, porém como muito inteligente que é, usou do discurso de um homem que abriu mão da riqueza pra servir seu povo.
Usou dessa retórica para afirmar inúmeras vezes aos microfones de sua rádio que “Em função da política era um homem empobrecido”, esse discurso faz com que seus correligionários o veja como um político que não usou de cargos públicos pra acumular riquezas.
Cintra se vestiu de populista dos pés a cabeça, desde suas roupas e carros usados ao seu discurso de pobre coitado que tudo deu pelos pobres. Seria o Getúlio Vargas de Belo Jardim, pai dos pobres e mãe dos ricos? Cintra levou o populismo tão sério ao ponto de fazer do gabinete do prefeito e de sua casa virar comitê pra atender os que o procuravam com pedidos de emprego, material de construção e etc. Porém sua política paternalista e vaidosa não o deixou pensar em um substituto em que seus eleitores o enxergasse como Cintra, nem Fabio Galvão nem Cecílio conseguiram se firmar como novos líderes do partido de Cintra. Confiando que o povo sempre seguiria ao seu comando que viu seu sobrinho Silvano Galvão sofrer a primeira derrota do grupo em quase 30 anos de disputa eleitoral.
Atualmente Cintra Galvão ainda é a segunda força política de Belo Jardim, mesmo não ganhando eleição municipal há 21 anos, porém seu apoio político é indispensável para aqueles que sonham ocupar o palácio Municipal.
Tem poucas aparições públicas, exceto em período eleitoreiros. Em frágil estado de saúde, porém dono de uma lucidez que impressiona. Vaidoso como sempre, o pavão é mito como nunca.
Texto: Cibele Santos